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"Para que viver? Tudo � v�o! Viver... � trilhar palha; viver... � queimar-se sem chegar a se aquecer" - F. Nietzsche, Assim Falou Zaratrusta .
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04/02/2004 15:20
Filhos de Jorge, homens e mulheres de Ben:
Se fizermos uma analogia na famigerada música brasileira, e jogarmos seus maiores compositores e interpretes numa árvore genealógica, teremos frutos de todos os tipos, graças à imensidão de ritmos, regionalismos e estilos que a nossa música incorpora.
Heitor Villa-Lobos é a raiz, sem dúvida. Maestro genial, compositor de uma das canções mais belas que se tem notícia, Trenzinho Caipira, foi importante até para a bossa nova, pela profunda influência que exerceu sobre a obra de nosso maior fruto, Tom Jobim.
Garoto, um dos maiores instrumentistas que o país já teve, popularizou o choro, junto com Pixinguinha. De formas distintas, mas essenciais.
Noel Rosa foi a gênese do samba como o conhecemos hoje. Está para o samba como Robert Jonhson está para o blues norte americano. Sem contar a contribuição para a consolidação musical de nosso maior letrista: Chico Buarque.
Mário Reis, sambista branco da alta classe, têm seus discos disputados a tapa em sebos. É tão importante quanto Nei Lopes, mestre intelectual do samba, que projeta uma carreira literária tão brilhante quanto a musical.
Milton Nascimento é talvez o compositor brasileiro mais influente no exterior depois de Jobim. Com obras definitivas como O Milagre dos Peixes, Bituca tornou-se referencial obrigatório para jazzistas do quilate de Pat Metheny, o príncipe elegante de jazz moderno.
Prestígio também é o que não falta a Djavan e Ivan Lins. Suas canções mágicas são interpretadas por artistas de todos os cantos do mundo. Inclusive, Djavan já tem um bastardo com um certo talento. (Alguém disse Vercílo?).
Temos ainda Caetano, Gil, Tom Zé e João Bosco da turma dos célebres.
Arnaldo Baptista, Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção da turma dos paulistas vanguardistas.
Tim Maia, Cassiano, Bebeto, Simonal da galera black.
Até Sabota (infelizmente de maneira póstuma) e Mano Brown são reconhecidos como poetas por eruditos chatos, porém sensatos.
Mas parece que ninguém descobriu que quase toda a cena da nova música brasileira, celebrada com ares de inovação e frescor sobre o marasmo musical que o país agüentou durante anos, tem um único pai, justamente o esquecido de nove entre dez listas dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos: Jorge Ben.
Um dos maiores artistas de todos os tempos, Jorge uniu o samba, o rock, o funk, a negritude, o candomblé (ou religiosidade) como ninguém.
Sua levada genial no violão deu nova cara à música tupiniquim sem alarde nenhum. Com a banda do Zé Pretinho (Povinho?) ou Admiral Jorge V, de Samba Esquema Novo ao Acústico MTV, Jorge fez o diabo, inventou o tal do samba-rock, foi subversivo sem participar deste ou aquele movimento. Não estava preocupado com panelas doces nem bárbaras, só em fazer música.
O resultado pode ser visto em todo lugar: desde Noites de Ben, projeto da melhor banda brasileira da atualidade, Nação Zumbi, em que os recifenses tocam somente canções de Jorge no show; Samba Blim, disco de Valéria Sattamini, grata revelação de nossa música, que regravou duas canções do Alquimista em seu álbum.
Andréa Marquee não batizou sua estréia de Zumbi por acaso.
Paula Lima, a diva, canta Jorge até cansar em seus shows, sem contar com a gravação de Guarda Chuva com o Funk Como Le Gusta.
Nhocuné Soul, uma das bandas mais promissoras para 2004, faz conexões diretas com a música de Jorge.
Os Racionais MCs fizeram Jorge de Capadócia ficar ainda mais melancólica e profunda.
Max de Castro dedicou Samba Raro ao mestre. Aliás, sua obra mostra-se cada vez mais calcada no som de Ben, sem perder a originalidade.
Simoninha foi um dos responsáveis pelo show no Olímpia que reergueu a carreira de Jorge, que andava esquecido da mídia e do público.
Beck é Ben desde criancinha.
Os Beastie Boys mudaram (para melhor) o som após serem apresentados ao Samba Raro por Mario Caldato (produtor renomado, responsável por A Procura da Batida Perfeita, de Marcelo D2), que é um divulgador dos discos geniais para os artistas gringos.
Se todos eles reconheceram, por que o resto do país ainda o ignora?
Não uma ignorância declarada, mas uma ignorância cínica de reconhece-lo apenas como o cara da alegria, o animador de festas e nada mais, sendo que sua importância é imensurável.
Ainda há tempo, não adianta começar a curtir depois que ele morrer, como gostamos de fazer com nossos artistas.
Umbabarauma, homem-gol...
enviada por Millie Vanillie
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